domingo, 25 de agosto de 2019

Chocalho de criança

Balança, balança...
Chocalho de criança.
Descontrai o som,
Traga-o de volta.
Rompes a porta,
Enferrujada de silêncio.
Ajuda-lhe a dar o tom,
Das cores, dos ventos,
Balança, balança,
Chocalho de criança.
Traga de volta.
A esperança brincalhona,
A expressão risonha,
O cambaleio dançante,
A ternura pulsante,
De nosso eu-criança.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O sono da multidão

Acorda! Joaquim,
Desperta-te, deste sono profundo.
Livra-te do abraço de Morpheus.
Sai por aí, a salvar o mundo.
Levanta-te, pelos tupis e malês.
Lutai pelos guris, pelos pueri,

***
Acorda! Joaquim,
Sai do ébrio pensamento,
Anda, voa que o tempo urge,
Liberta nossa canção,
Lança-a ao vento.

***
Solta o lupus em ti cativo,
Solta a multidão que tu és,
Faz a inveja de Hércules,
Abala a confiança do algoz,
Ainda que seja um bicho feroz.

***
Invoca em teu auxílio, os deuses e heróis,
Mas não permaneças nesta perplexidade,
Sai agora, à luta, Joaquim, vais!
Vais, combater na cidade.
Usa tuas palavras e gritos,
Usa teus versos de amor e liberdade.

Sentimento materno

Soluços e desespero,
Cama molhada,
Rompe a madrugada,
Imagens do tempo,
Dores grávidas do porvir.
Rabiscos de um livro não escrito.

***
Meu filho, grita em desespero,
Meu filho! Onde estás?
Procura a barulhenta mãe.
E vai ao quarto afônico.
Em silêncio, um abrir de porta.
Tão repentinamente como chegou,
Vai-se embora o desespero.

***
Meu filho, sussurra baixinho,
Meu filhinho... sono e silêncio.

Lembranças buliçosas

O tempo canta
Lembranças buliçosas,
Cantos passarinhos,
Sementes que voam,
Árvores frondosas.

***
Cruz caída, lá em cima,
Ao longe o barqueiro,
Cinzas combalidas.
Presente-futuro traiçoeiros.

***
De olhos no horizonte,
Vejo-me cantando de repente,
Na janela de ontem, lembro,
Tudo era tão diferente.

***
Tambores ao vento,
Clarinetas ao tempo,
Olho e sorrio.
Nos porões da memória,
O elixir do futuro.

Exaustão poética

Anjos, céus e nuvens,
Ideias em queda livre,
O abstrato em versos,
Torrente de palavras,
Imensidão de mares,
Rios, lagos, tempestades,
Sol reluz e quente,
Versos entre o tudo e o nada,
No papel, trilhas de tinta borrada,
Imagens duras de um poema faminto e exausto,
Espalhado pelo meio da estrada.
"A ti, meu sentimento de...
Vai como um poema de amor".

Eclipse lunar

Adeus! Adeus, meu bem.
Sei, não querias partir.
O mundo é o espinho da rosa,
e o nosso calcanhar é de Aquiles.

***
No dia em que pousares na minha cabeça,
Que se acalente o meu espírito,
No intento em que eu pereça,
Que se poupem as palavras,
De um livro já fechado.

***
A caneta sem tinteiro,
Espelho d'água que secara,
O sol já não toca o abismo,
Nos meus olhos, o universo vazio.

***
A ti, meu último respiro.
Caio indefinidamente,
Em viagem ao centro da terra,
Sou um ponto que se vai, pequenino,
Como um poema de amor.

Amor da miséria

<Autor: Paulo André dos Santos>

Seja feita a Vossa vontade, Miséria.
Algoz de meus pensamentos.
Porque me persegues?
Sai! Vai-te agora. Sai por aí, livremente.

***
Afasta-te da minha mente.
Deixa-me em  paz,
Deixe-me, aqui, com as minhas canetas.
Elas estão agitadas,
Loucas de morrer.
Querem uma mão, para dançar.

***
Espere! Volte aqui.
Não vá muito longe, viu?
Meu coração já arde de saudades.
Não consigo escrever.