domingo, 20 de março de 2011

Diálogos preliminares: o que é ser contemporâneo?




POR: PAULO ANDRÉ DOS SANTOS.

Ser contemporâneo... O que seria realmente isso? Uma discussão sobre essa temática é tão irremediavelmente complexa que muitas pessoas podem dizer, conforme o clichê popular, que “Só Freud explica”. Outras, preferem se arriscar por esses mares revoltos, levando em consideração variadas hipóteses.

É trilhando nesse caminho que conseguem manter-se com os “pés no chão”. Leituras que tenho realizado nos últimos anos tem me ajudado nos diálogos tecidos com os frequentes acontecimentos e transformações que se protagonizam diariamente nas formas de se pensar e de se agir no mundo.

As coisas mudam em um ritmo cada vez mais rápido e, para não perder o “bonde da história”, é preciso estar em contínuo aprendizado. Para Paulo Freire, considerado um dos maiores filósofos da educação, inclusive em nível planetário, o ser humano é por natureza incompleto, por isso, ele sempre está na busca de aprender e realizar coisas novas, para ampliar horizontes.

Nesse viés, ao trazer essa idéia de contínua busca humana pelo desenvolvimento, podemos ter como um reflexo da contemporaneidade os acontecimentos do passado, isto é, aquilo que já foi, em algum momento da história contemporaneidade.

No último século, por exemplo, pode-se ser perceber grandes avanços no campo das ciências, ainda que tais conhecimentos tenham, também sido utilizados de maneira inapropriada, negativa.

A partir desse contexto, é possível realizar uma reflexão sobre o que é ser-contemporâneo. Percebe-se, por exemplo, que a contemporaneidade é um movimento do tempo, que está acontecendo e sendo marcado por mudanças.

Leituras sobre contemporaneidade evidenciam-na colocando-a como sendo o gerúndio, o filete do tempo que denominamos de presente. Ela existe desde que o tempo é tempo. Ou melhor, desde que a humanidade passou a concebê-lo como tal. Ser contemporâneo aos olhos da atualidade, é dialogar com a realidade, de modo a conhecê-la da melhor maneira possível e assim desenvolver estratégias de adaptação/transformação aos/dos contextos.

Os dias atuais, ou seja, essa contemporaneidade viva em que nos situamos, refletem, conforme o pensamento de Sigmunt Bauman, os ares da pós modernidade, onde os diferentes dialogam entre si, transformando e se transformando a/pela dinâmica da sociedade.

Em meio a isso, bem e mal se misturam; verdade e dúvida adquirem um status equivalente de importância, o que faz com que, nos discursos proferidos pelos estudiosos mais sérios, nenhuma delas seja descartada.

Ao mergulhar criticamente em estudos sobre a globalização das economias capitalistas, assim como, as implicações desse processo, em inúmeras dimensões, a exemplo de Milton Santos, pode-se concordar de que há, até certos limites, um deslumbramento, sobretudo, patrocinado e alimentado pelas ideologias de consumo, que introjetam nas pessoas um mundo fabuloso, onde a ilusão parece ser palpável.

No entanto, através de estratagemas muito bem elaborados, os “agentes” do sistema capitalista, conseguem empurrar toda a sujeira produzida para debaixo do tapete. Conseguem a proeza de (re)significar a perversidade que praticam, tornando-a aceitável, normalizada, típica do cotidiano, fatalisticamente, inevitável.

Nesse sentido, através da perspectiva de Milton Santos, é emergente lutar por uma nova configuração para a Globalização. É preciso encontrar uma solução mais sustentável, ou, toda essa estrutura montada até os dias atuais, irá ruir e, provavelmente, em cima daqueles que se encontram deserdados das benesses do capital.

Isto porque, geralmente, na lógica capitalista, faz-se assim: privatiza-se os lucros e socializa-se os prejuízos. Na hora da crise, todos tem que ajudar.

Nesses momentos, o que se pode ouvir das autoridades governamentais é algo do tipo “pedimos a compreensão pelo momento difícil ao qual passamos”. Sem reconhecer que, num lance quase perpétuo, para a grande maioria, só existem momentos difíceis.

Ser contemporâneo, atualmente, é estar lançado em uma corrida desenfreada para conseguir acesso aos recursos, sejam eles financeiros ou culturais. Ser contemporâneo, implica em fazer parte de uma tribo, qualquer que seja a sua natureza. Significa estar em algum lugar dentro da geografia globalizada.

Estar em uma tribo, nesse contexto, significa seguir determinados objetivos, comportar-se semelhantemente ao grupo a que pertence, incluir-se ou excluir-se do mundo do capital. É buscar o conhecimento a fim de alcançar determinadas posições de poder, ou, simplesmente, sobreviver.

Ironicamente, nos dias atuais, em que a tecnologia se faz cada vez mais presente na vida das pessoas incluídas socialmente, por outro lado, aumenta cada vez mais a fila dos “refugos humanos”, dos desempregados e desabrigados das cidades.

Esse, sobretudo, é um dilema em que se encontra grande parte das cidades espalhadas pelo mundo.

Ao pensar em futuro mais adiante, é possível ficar horrorizado ao avistar no céu as nuvens negras da explosão provocada pelo colapso do sistema. E ser contemporâneo, enfaticamente, é pensar, hipotetizar e realizar projeções, como agora, do futuro. Talvez, essa seja uma das principais características dos habitantes dessa contemporaneidade viva, o olho voltado para o futuro. Não por uma questão de escolha, mas, pela exposição contínua a uma periclitante sobrevivência.

sábado, 19 de março de 2011

Folhas secas.



***(POR: PAULO ANDRÉ DOS SANTOS)***

Nunca mais o canto dos pássaros à janela,
Nem tampouco o cântico das cigarras ao anoitecer,
Coisa rara, nessa barulhenta cidade,
Onde os sons se misturam, todos falam e ninguém se comunica.

***

Nunca mais conversei comigo, apesar de conversar com o mundo pela Internet,
Hoje mesmo, meus vizinhos postaram um recado no meu Orkut,
O discurso falado, parece-me, em forte recessão,
Pais já não sentam à mesa com os seus filhos,
Filhos já não tem o mesmo respeito pela autoridade natural dos pais.
Assim, o mundo segue mudando, rumo à desordem e a falta de sentido.

***

Sou apenas passado, diante de um presente tão vazio.
Sou diferente, apesar de alheio à visão aos outros.
Sou uma sombra na agitada multidão,
Imperceptível ao olho clínico,
Que cego, surdo e mudo, soluça lamuriosamente,
diante da nauseante realidade,

***

O fútil ri descarado para o excluído,
Deixando na pia os restos de comida,
Consumindo tudo o que o desejo pode devorar,
Até mesmo sem precisar, não hesita em pagar.

***

Confesso que também perdi o caminho,
Nunca mais fitei a praia ao amanhecer,
Não mais vi o quebrar das ondas na areia,
Não mais, as águas do mar apagando promessas de amor.

***

Quanto valor perdemos, quanto perdemos em viver...
O céu, as estrelas, o sol, a chuva, tudo sobre o mesmo olhar vazio.
Somos a expressão de um sorriso sem graça
De quem ouviu uma piada de mau gosto e não teve coragem para falar...

***

Somos como uma árvore de folhas secas,
Pronta para morrer murchamente,

***

Tudo perdeu o sabor, as cores, a beleza esplêndida, esculpida pelo mistério.
Agora, deitados na sarjeta, convivemos resignados com a mediocridade.
Lamentando todos os dias, quando pisamos no chão, a perda da visão;

***

Estamos à beira da loucura, numa angústia solitária,
Contidos na criatividade apodrecida,
Respirando noites repetidas, ares pesados, ouvindo músicas de uma nota só.

domingo, 6 de março de 2011

Falta açúcar, sobra doçura.




Por: Paulo André dos Santos.
Nos ambientes coletivos do cotidiano, independente de suas naturezas e finalidades, dá para fazer um deguste muito diversificado. Há pessoas de todos os tipos. Há pessoas doces e amargas. Há aquelas que carregam consigo, no dia-a-dia, a suavidade das frutas frescas. Outras pessoas, por sua vez, aparentam grande satisfação pelo cultivo do azedume. Com olhar sisudo e uma postura embrutecida, realizam um enorme esforço até mesmo para manifestar aos colegas o desejo de um bom dia. É comum a essas pessoas que o dia esteja, rotineiramente, às cinzas, num incessante luto, como se houvesse uma indispensável necessidade constante de se chorar e de tornar o acontecimento trivial em uma catástrofe. Ainda bem que nem tudo é amargo. Existem pessoas que tem o sol dentro de si, que são iluminadas, tão agradáveis quanto o aroma das rosas. Geralmente, costumam transmitir bons fluidos a todos que lhes cruzam o caminho, energia positiva. São, quase sempre, capazes de contagiar de bom humor o mais indiferente dos cidadãos.

Segundos.



Por: Paulo André dos Santos.
Um dia, um minuto, um segundo. É o que pode durar uma decisão. Uma fração mínima, insignificante de tempo, que pode custar, muitas vezes, dias, meses, anos, ou, até mesmo, uma perpétua e indigesta consequência. Uma decisão precipitada pode render um exílio distante e desconectado das pessoas mais próximas. Pela insensatez cometida, amarga-se intermináveis castigos e perde-se de vista o que de há de mais precioso na vida, o propósito, a direção e a trilha da liberdade. Em segundos, as flores murcham. Em segundos, as ondas do mar esvai toda a beleza transbordante na areia. Tem segundos que valem por uma vida. Outros, é melhor esquecer. Em segundos alguém pode ficar rico, pode lacrimejar de felicidade ou, simplesmente, cair na mais severa desgraça. Muita coisa é passível de acontecer em frações de segundos. Coisas boas ou ruins. Pode-se ganhar, ou, desastrosamente, perder a dignidade, a saúde e, até, a vida. Em segundos, aproveitamos, ou não, a oportunidade de viver plenamente, de realizar proezas, de atravessar oceanos e alcançar sonhos distantes. Assim, a distância entre o que somos e o que podemos ser, está sujeita a ser determinada em questão de segundos.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Lembranças de Guantánamo.




Por: Paulo André dos Santos.

O homem sempre muda a paisagem, ainda que algumas imagens insistam em permanecer. Ao longo de quase sete anos, várias experiências fincaram marcas difíceis de apagar. Em Guantánamo a comunidade de prisioneiros, assim como a sociedade fora do presídio, estava dividida em grupos de influência e de poder de decisório. Pode-se dizer que lá na prisão existiam basicamente duas opções para de se incluir na coletividade. Em Guantánamo não tinha meio termo, ou se é amado, ou se é odiado. Os amados, apesar de serem iguais aos outros prisioneiros, possuíam prestígio junto aos agentes carcereiros. Eram tratados de maneira diferenciada. Possuíam Tv a cabo, visitas íntimas prolongadas, bebidas, etc. Já os odiados, em contrapartida, eram os opróbrios, exemplos da insignificância, os refugos humanos deportados para um ponto qualquer da Sibéria. Privados da liberdade e condenados ao esquecimento, tornaram-se invisíveis aos olhos da sociedade. Ninguém ouvia os gritos que rompia o silêncio da noite; ninguém percebia a sujeira e o mal cheiro das celas. Nesses anos, muitos desejaram sair do cativeiro. Alguns para mudarem de vida, outros para reeditá-la. Dos poucos que conseguiam respirar o ar da liberdade, alguns sempre acabavam perdendo a direção e acabavam regressando ao inferno prisional de Guantánamo. A liberdade também cobra o seu preço; sempre há o que dar em troca dela. Para os que voltavam, os castigos eram piores. O sangue e a carne viva, geralmente, ajudavam a caracterizá-los. Em Guantánamo era um consenso entre os prisioneiros: era muito difícil sair da prisão, mas, o mais difícil, ainda, era voltar. Se entrar em Guantánamo causa a sensação de ser enterrado vivo, regressar à prisão, após breve e frustrada fuga, é como morrer lentamente, silenciado e sufocado, sem qualquer chance de despedida.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Podres poderes.

Apesar das nuvens, o sol brilha.
Apesar das sombras, a esperança fervilha,
Lá das nuvens, quando a chuva cai, a vida cresce,
A luz prevalece, o sol brilha, fervilha.

Apesar do homem, homens prosseguem,
Arrastando-se pelos caminhos tortuosos,
De uma vida ingrata e sofrida,
Longe dos olhos dos famosos.

A vida é consequência da morte,
A morte é uma sequência da vida.
Todos nascem para morrer,
Outros morrem para ter vida,

Sem pão para comer,
Nem lugar para guarida,
Ninguém mais quer ver,
Essa cena tão sofrida.

Apesar do homem, o homem vive.
Lá embaixo dos escombros,
De uma destruída humanidade,
Fruto da desumana perversidade.

Os animais são mais sensatos,
Matam apenas para viver,
Os homens, reles estúpidos, ingratos,
Bebem o sangue por prazer.

Ceifam a vida do ventre livre,
Condenando-o à exploração.
Assim se nasce, assim se vive.
Catando as migalhas do patrão.

Na casa do senhorio, comida farta na mesa,
Enquanto grita bravio, o estômago vazio da serviçal,
Que lamenta e chora noites a fio,
Que os deuses a livre de tanto mal.

Os podres poderes que submetem,
A mais indigna posição,
Homens e mulheres condenados,
A mais extrema humilhação.


Não podem conter a energia,
Que emana dos corpos feridos,
Pelo punhal da miséria,
Agonizam, mas, resistem ainda os “vencidos”.

- Por: Paulo André dos Santos -

RESENHA

REFERÊNCIA: TROPA DE ELITE 2: O inimigo agora é outro. Lançamento: 2010. Atores: Wagner Moura, André Ramiro, Maria Ribeiro, Milhein Cortaz. Participação: Seu Jorge. Duração: 116 min. Gênero: ação. Estúdio Zazen produções. Distibuidora: Zazen Produções. Direção: Tiago Marques. Música: Pedro Bromfman. Fotografia: Lula Carvalho. Direção de arte: Tiago Marques. Edição: Daniel Rezende.



RESENHA

POR: PAULO ANDRÉ DOS SANTOS.

Maior sucesso de bilheteria da história do cinema brasileiro, o filme “Tropa de Elite 2”, traz uma perspectiva diferente da saga anterior. Aliás, como transparece o seu subtítulo (“O inimigo agora é outro”), a produção procura desmitificar e demonstrar que existe toda uma rede de poderes na relação de conflito entre polícia e crime organizado.

Protagonizado por Wagner Moura, o filme convoca à reflexão os espectadores, para a temática da violência, dos direitos humanos, envolvendo a polícia e o crime organizado. Ao mesmo tempo, o filme procura mostrar que uma das consequência da corrupção política e policial, é o fortalecimento do mundo do crime.

O filme denuncia, de maneira contundente, os meandros da vida policial e política do país. Traz em cena a perspectiva criminosa das melícias, que são controladas por policiais corruptos ou ex-policiais. Por outro lado, deixa evidente a condição de exploração que se encontram os moradores de favelas controladas pelo tráfico de drogas, ou, pelos milicianos.

Em relação a esfera política nacional, a produção fílmica desnuda o esquema de “compra de votos”, que, por absurdo que possa parecer, ainda se constitui em uma estratégia muito utilizada para os políticos alcançares ou se perpetuarem no poder. Muito bem articulados, alguns “bandidos de gravata”, percebem, no contexto do filme, que é mais vantajoso para eles terem como aliados os criminosos que controlam as comunidades das favelas.

Ou seja, em troca de votos, faz-se convênios secretos com o crime organizado. A história do filme é ficção, mas, a realidade não está longe disso. Casos recentes da história brasileira revelam que a associação de políticos ao crime organizado não é conto da carochinha. A propina recebida por policiais e por políticos é uma realidade quase rotineira.

Enquanto isso, as organizações criminosas se fortalecem, com armas e com a conivência de agentes de um sistema que deveria atuar para defender a lei. Ao invés disso, preferem se tornarem sócios dos traficantes, cobrando dinheiro em troca de proteção.

Fica evidente, infelizmente, que a problemática da criminalidade no Brasil é, muitas vezes, agravada não pela falta de recursos das polícias, mas, por uma distorção no comportamento dos agentes policiais e políticos diante da situação.

Assim, como verbaliza o Capitão Nascimento, o sistema é um organismo complexo, composto por elementos que, muitas vezes, mudam o curso de suas atribuições dentro do sistema, aproveitando-se do lugar que ocupam para realizar empreendimentos pessoais ou de outrem. O problema do sistema, conforme encerra o filme está situado em suas diversas esferas, mas, principalmente, nas altas esferas políticas do país.